22 de setembro de 2017

aldeia zoroastra







Postado perante uma civilização morta
nessa qualidade inóspita de visitante
a ruínas mais ou menos remontadas
pela imaginação arqueológica dominante,
não é o pó que me incomoda
nem as tantas pedras dispostas que ninguém
verdadeiramente sabe o que são ou serviam
nem a atenção dos leigos desviada
por ilustrações modernas arriscadas,
especulativas –

incomoda-me a própria visitação :
ninguém está tão morto como naquele momento
em que começam a chegar as visitas
desfilando ordenadamente aos nossos pés
olhando-nos com a curiosidade da última vez
facilmente confundível com a volúpia do primeiro encontro.
Visitamos civilizações mortas e, como num velório,
honramos tudo
o que não fizemos em vida.
Pode ser tarde para aprender com Zaratustra.

7 de julho de 2017

Medida Incerta







                                                                      (Para o José Pedro Croft)


O maior telescópio do mundo foi instalado em Veneza.
O mais amplo O que vê mais dentro no universo do sentido.
Coisa nunca vista: nem a atmosfera é rarefeita
graças à altitude Nem a poluição luminosa
escasseia no seio da multidão Nem o frio
gela à distância os monstros que distraem as lentes
Nem a elevação do sítio aproxima a arma do alvo
e a humidade da lagoa ameaça a saúde dos dispositivos mecânicos.
Pela mão do homem que curvou um relâmpago
o artefacto confessa a dúvida.
As ópticas desalinhadas As convexidades desviadas
para fins artísticos As disposições metafísicas
do programa de investigação A distribuição espacial
dos corpos em malha As almas encravadas na lama
e luz, muita luz na noite dos tempos,
uma medida incerta a impugnar teoria após teoria:
é o pandemónio no reino da lógica.
Incerta Medida é justa a lenda
do homem que curvou um raio de luz
com um sopro. O maior microscópio do mundo
devemo-lo ao homem que não sabia que era impossível.


(Imagem: vista parcial da obra Medida Incerta, de José Pedro Croft, na Bienal de Veneza 2017.)

23 de junho de 2017

Hic sunt leones





Nestas cidades onde todos nos tornámos migrantes invisíveis
cada homem, cada mulher, cada criança
é uma região do mundo de que pouco se sabe.
Cada vizinho está para além da Taprobana,
em alguma inabitável periferia da ecúmena:
todas as portas são províncias marcadas nos mapas
com os antigos avisos “aqui existem leões”.
Nas ruas que restam, cerzidas por negociantes de ruído,
é irrestrita a liberdade de tagarelar,
mas bairro a bairro vivemos uma frente do tempo
onde não resta espaço algum para a habitação.

12 de junho de 2017

Os Pais



(para o João Pato)



Os pais avançam às arrecuas, vindos da caça, da guerra,
Vindos do mar em direção a terra. Desasados,
Entram em casa sujos, puxando as charruas,
Alfaias de lavoura, para o cuidar tão cruas.
Alguns conhecem os nomes de todas as árvores,
Outros os nomes de todos os peixes,
Poucos os de todas as estrelas, ou das dores a lista infinda.
Alguns pais sabem mesmo o nome de todos os filhos.
Mas por mais inteira que seja a sua ciência percebida,
Aos olhos dos filhos a moral de um pai permanece incerta.
Esguia. Obscura. Vimo-lo salgar as pastagens dos inimigos
E livro algum no mundo explica uma batalha por linhas direitas.
Até à hora de entendemos como,
Na cristalina necessidade do universo,


Os pais sacodem a terra das raízes dos filhos.


6 de março de 2017

[A distância faz a diferença]





A distância faz a diferença.
De longe somos todos omniscientes
Da paisagem da dor alheia.
De perto, na fricção da contingência,
Infecto insecto estrebuchante na teia.

8 de fevereiro de 2017

Da amorosa morte


Magoa esta impossibilidade práctica de morrer.
Uma companhia de anjos e arcanjos amarra-me
a uma armada de máquinas ignaras
e tantos em meu nome falam e por mim advogam
e eu preso no silêncio próprio contemplo o meu corpo

de longe. Visto pelos meus olhos, estou agora cercado
num castelo terapêutico. Continua tenaz a pintura
a branco imaculado das muralhas e eu silêncio.
Silêncio e vontade de silêncio. Seguir o caminho.

Vontade de seguir caminho além desta estação.
Preso peço-te despede-te de mim e fica e em paz parto
por tudo o que fomos um para o outro sem erosão tardia.
Por tudo o que seremos ternamente no instante possível

sem delapidar em obstinação o que tanto amamos.

12 de dezembro de 2016

[ Não me lembro do primeiro beijo]





Não me lembro do primeiro beijo.
Vejo a rapariga que faz a noite, é esquerdina,
há pouca luz, não está a ler enquanto escrevo.
Lê. Não te interrompas.
E não improvises: não imagines o verso seguinte
na tua cabeça, que na minha ainda o não escrevi.
Afinal, mulher, escrevo só para ti,
como escrevo unicamente para um leitor qualquer.
Face à página ocupada, o mundo dirá da ocasião
a etiqueta: do contrato, da ascensão aos céus, do entrudo.
O cão, o pau, o caminho, o medo, o ladrar,
tanta gente e ninguém com a cortina negra de veludo
cobre a tragédia informe que corre neste obscuro bar.
Sob o relâmpago suspenso
vejo a rapariga que faz a noite, é esquerdina.
E não consigo ser eu própria esquerdina.
Não me lembro do primeiro beijo:
não era decerto eu quem estava lá.
Irremediavelmente diversos, eu, nós, todos:
em prosa, em silêncios, em versos.

18 de novembro de 2016

Fahrenheit 452 (carta aos novos poetas portugueses)


Fahrenheit 452 (carta aos novos poetas portugueses)

passas a mão pelo pêlo do bicho
e escreves “hirto, o pêlo do bicho”
e confias que eu compreenda:
porque conheço o pêlo, conheço o bicho e conheço “hirto”
já os encontrei em outros dias não olvidados
já usei essas palavras e esse bicho
tudo isso tu esperas

imaginas que por muito pobre que eu seja
hei-de ter visto um bicho algures
afinal, livros com histórias compreensíveis estão à venda nos quiosques
qualquer jornal televisivo encontra cientistas sociais nos seus inquéritos de rua
alma por alma, tens a tua,
imaginas tu nos teus diálogos amorosos comigo, teu leitor;
mesmo os pedintes podem nos cruzamentos ver toda a sorte de fantasias
como se acolitassem o sumo pontífice
em audiência à embaixada que o pitoresco e gastador monarca
enviou com elefantes e onças amestradas
para que se soubesse na cristandade a ventura que era ser rei
deste reino de portugal
e ter assistido à descoberta do caminho marítimo
para ir à índia e à rota do brasil

o que tu não podes saber é de onde conheço eu o bicho
nada suspeitas quanto a que hirto está o meu pêlo
e que o que mais temo é que me toques o dorso
e que o meu receio é a fraca agilidade para morder-te a mão;
transtorna-me que penses sequer no meu abrigo natural
e não penso uma só vez que seja
que isso aconteça apenas na camada de cima do teu poema

se pudesses morder-me, eu compreendia-te
mas tu escreves para que as palavras me façam sentido
para que haja uma palavra tua para cada tijolo do mundo
seja por nomeares as peças da máquina com palavras próprias
seja por podares as palavras sem dono
e isso cria-me o desconforto de sugerir que te compreendo:
parece que me desejas um abrigo
imagino a tua disposição para me acolher
no recanto de onde parte o teu olhar
e isso incomoda-me

se quisesse morder-te, compreendia-te:
mastigar explica muita coisa
mas como queres que a gente se morda num abrigo?
se me expulsasses
se pairassem alienígenas nas nossas salas
se as nossas mães
com armas mirabolantes se apresentassem nos nossos quartos
e os nossos filhos fossem enxertados
em artefactos engenhosos
se os incendiários não usassem tão apenas querosene,
talvez o falecer da compreensão me ajudasse
– mas como queres que valha a pena ouvir o que já está escrito?

Podes até acariciar-me, isso não faz mal algum
porque nada explica;
mas esquecem-se-me os poemas, prefiro as parábolas
fugidias.

(in Monstros Antigos)

9 de outubro de 2016

Luís Quintais sobre "Monstros Antigos"



[O poeta Luís Quintais publicou uma recensão dos meus "Monstros Antigos" no nº 190 da "Colóquio Letras" (revista da Fundação Calouste Gulbenkian), dirigida por Nuno Júdice. Aqui fica o texto.]



 

Porfírio Silva, Monstros Antigos, Lisboa, Esfera do Caos, 2013.

A poesia hoje poderá ser um eco disso, uma simulação disso. A poesia poderá e será hoje não o género literário claro, delimitado que foi um dia - e que deve muito a uma determinada aceção do que é a prosódia, a síntese e a intensidade -, mas outra coisa que se define por uma determinada aceção do fazer linguagem. A poesia será aquilo que da linguagem nos é alheio, será, se quisermos, a alteridade ou a diferença que subsiste, que teima em subsistir, na linguagem que julgámos nossa, e, nesse sentido, habitável.

Tudo isto a propósito de «Monstros Antigos», um livro de poemas de Porfírio Silva. Sendo um filósofo da ciência com um trabalho considerável no domínio, com textos importantes sobre Paul Feyerabend, a cibernética, e o artificial, o autor parece convocar no seu livro uma forma de escrita que é, até pelas suas declinações de carácter mais meta-representacional e ecfrástico, uma extensão das suas preocupações de filósofo e estudioso da ciência.

Não é comum encontrar poetas no cânone português que se tenham consagrado a pensar a ciência e a relação que ela estabelece com a nossa condição moderna. Teria a poesia portuguesa ignorado esse dado civilizacional e cultural básico que marcou e marca tão profundamente o nosso quotidiano? Raríssimos nomes escreveram a partir dessa experiência dilacerante que se prende com o modo como a ciência destronou certezas e convicções. O conjunto de nomes não nos permitiria fazer uma antologia de vulto e interesse. Poderíamos citar Vitorino Nemésio, António Gedeão, ou, mais recentemente, Manuel António Pina. Poderíamos, lá atrás, convocar a figura de Pessoa, em particular o seu heterónimo Álvaro de Campos. Mas não há antologia nenhuma da poesia portuguesa do século XX - que é o século da ciência, diga-se o que se disser, dadas as suas figurações mais trágicas e inquietantes -, que não exija ou não seja perpassada pela presença ou ausência de Pessoa. Porém, a densidade e dimensão de tal antologia seria quase irrelevante.

A pergunta, com tonalidades sociológicas óbvias, será afinal esta: porquê? Não responderei aqui a ela. Mas é manifestamente sintomático que a poesia possa ser assimilada ao monstruoso em declínio, a uma certa pulsão arcaica, tribal, antecedente, talvez perigosa porque remissível para o não categorizável, para aquilo que escapa, para a fluidez mercurial do texto e dos seus desígnios (também eles de aferição improvável). Continuamos a fazer essa associação, e é essa associação a algo agónico que nos seduz tanto em poetas como Herberto Helder, justamente porque, em Herberto, encontramos essa pulsão vital por algo que transborda, que não é modelável pelos regimes de classificação e mobilização que a ciência e o desencantamento do mundo moderno trouxeram. Se Hölderlin se despede ainda à beira do Neckar desse mundo em que os deuses recuam, é também porque, num poeta como Herberto Helder, a despedida se reatualiza e se ritualiza através de uma perspetiva sobre a linguagem e sobre o tempo que tememos ter perdido irreversivelmente. Atravessámos a fronteira do respirável, poderíamos dizer num idioma próximo ao de Hölderlin.

Atravessámos há muito essa fronteira, e foi a ciência e os seus híbridos que nos mostraram como não podemos voltar para trás - isto a aceitar que o projeto moderno se esgotou, o que não é assim tao claro como a minha escrita poderá aqui sugerir. A poesia é o eco desse tempo já mudo, o eco de um canto, o símile de uma demora que atravessa a má- consciência do presente. Num livro como aquele que me proponho recensear, essa sensibilidade parece percorrer os seus melhores momentos. Porfírio Silva escreve poemas que vêm depois da Razão e da sua trágica inscrição no mundo, e fá-lo como quem sabe que poderá estar a trilhar um caminho improvável, de onde a poesia portuguesa se parece ter eximido. A ousadia estará porventura numa vontade em libertar-nos de um certo sono dogmático que se prende, afinal, com o modo como permanecemos distantes do mundo secularizado que a ciência nos legou, no qual a poesia se assemelha a uma inconsequente resposta, a uma hipótese de sentido não inteiramente esgotada, mas pouco recetiva a presentismos ou afirmações de contemporaneiade que não sejam aquelas que a disforia permite.

O poeta é aquele que, usando a metáfora arqueológica, pressente uma morfologia de cidades escondidas ou subterrâneas jazendo sob a tranquila rotina do seu escritório: «Há trinta e três cidades subterrâneas / no meu escritório / de casa. // Não resulta tão certo número de cidades subterrâneas / da idade exacta de qualquer deus / na terra» (p. 13). Mas mais que esse labor subterrâneo, esse resgate de cidades invisíveis ou incompletas, dir-se-ia que a linguagem procurada é antes o limite do que pode ser explicado. Não se trata tanto de nomeação (o que não pode ser nomeado), mas antes de explicação e seus limites. Assim, logo após o poema «Cidades Subterrâneas», Porfírio Silva faz incluir no seu livro um outro que se intitula «A explicação do mundo», onde escreve: «Se o axioma da conservação da continuidade explicasse o mundo / e o demónio de Laplace conhecesse os estados iniciais / de todas as partículas e todas as forças / de que é composto o universo, / então os modelos de funções analíticas explicariam / a génese e mutação das formas / o nascimento e a morte dos alicerces / o gérmen de fissura nas caves da construção / a multiplicação dos exércitos de um homem só / as crianças com uma face que ri e outra que chora / e os lagos como o de Balkashe: metade é salgado, metade é doce / os peixes de água doce na metade salgada / os peixes de água salgada na metade doce. / Mas não explica» (p. 14). É neste «não explica» que estará porventura essa alteridade ou diferença que a poesia procurará fazer reverberar.

«Monstros Antigos» não é assim um livro de poesia sobre os efeitos cognitivos ou políticos que a ciência nos legou, mas um livro sobre o que está nos limites ou nos interstícios desses efeitos. É sobre a «clareira da ausência» (p. 15) que parece abrir-se a cada passo neste mundo secularizado e ateu (a primeira civilização ateia de que há memória). Trata-se de um lugar onde a poesia só pode assumir a função de uma metafísica secular, como nos diria certamente Wallace Stevens.

Este mundo que forças históricas obscuras ergueram, onde ninguém «dorme debaixo da metafísica» (p. 32), e onde o humano se degrada como possibilidade, sentido ou expectativa, a poesia é o topos do que talvez já não possa acontecer. Uma negatividade que é, porém, uma afirmação, ainda que toldada pela melancolia e pela constatação de que todas as línguas se sujaram, ou que, no limite, agonizam ou estão mortas: «E afinal todas as línguas humanas são já línguas mortas» (p. 33). Toda a poesia que ainda resta revolve-se sobre um magma de coisas feitas, ditas, acabadas, esquecidas. Uma representação sobre outra representação, sobre outra representação ainda. Toda a poesia, hoje, é fundamentalmente ecfrástica, procurando encontrar o contra-campo e o fora-de-campo nesse território de imagens que ameaçam o tempo e o espaço com uma promessa de transparência. Assim é este «Monstros Antigos». Poemas como «Retrato da Princesa Joana Santa» (pp. 8-9), «Capelas imperfeitas» (pp. 50-51) ou «De seus labirintos digo» (p. 56), denunciam esta procura meta-representacional que parece atravessar todo o livro de Porfírio Silva.

Uma das implicações mais notórias desta dimensão ecfrástica e meta-representacional é de cariz político. Como fazer a linguagem e a pólis (elas são mutuamente constitutivas) num tempo de esgotamentos e premissas contaminadas pelo desastre da história? O autor não responde à pergunta, mas ergue parábolas, analogias, incursões onde articula o self com uma lei moral que parece, em todo o caso, ausente. Sintomático disso mesmo é um poema como «Da prudência», onde a phrónesis aristotélica é também uma restituição do valor da palavra: «desde que a palavra chegou à cidade / e nada nunca mais da dureza do mundo lhe foi indiferente» (p. 46). Sintomático disso mesmo é a inarticulação entre emoção e razão, sangue e território, que se traduz em poemas como o que cito aqui em toda a sua extensão: «Que interessa o meu medo? / O meu medo não é assunto da cidade. / Da cidade é a palavra / porque as linguagens privadas não existem / e os muros, becos e pontes / essas estruturas basilares dos locais / andaimes do que é inteiramente público / só tem uma matéria: palavra. / Não cuides do meu medo / o meu medo é uma lavoura da casa / e não devem plantar-se em terra / bacelos de videiras marinhas» (p. 38). A referência implícita a Wittgenstein é decisiva: toda a linguagem é pública. A pólis é o seu lugar, e a inversa também é verdadeira: a linguagem é o lugar da pólis. Não haverá poesia senão aquela que essa dimensão pública consentir. Não haverá outra coisa senão poemas políticos, mesmo quando as ilusões da pessoalidade se parecem querer sobrepor aos desígnios da cidade. É Seamus Heaney que nos sugere algures - e cito de memória - que o fim da arte é a paz. Porfírio Silva poderia subscrever esta afirmação, dizendo-nos o mesmo mas de outro modo: o fim da arte é a cidade, essa ecologia da palavra e da poesia.


Luís Quintais

(apartes ao caderno de Tóquio - 6)





se é afinal pequeno o mundo
e nunca por uma volta sequer
lhe deste o que anualmente
a terra faz ao sol,
será do tempo que é curto?
mas se ser pequeno sem motivo
não te alegra, dá ao mundo
ao menos uma vez por noite
o que a terra diariamente dá ao sol
sem fadiga ou impedimento.


(Imagem: Koichi INAKOSHI - Maybe maybe #8 - 1971)