20 de janeiro de 2018

o país dos outros



(lendo Rui Knopfli)



Hoje sonhei em braile.
Sonhei numa língua gestual para mim totalmente desconhecida.
Sem sons. Sem fala.
Não conseguia caminhar
E mesmo o esbracejar era lento e pesado.
Não conseguia atrair a mão nem o olhar
De ninguém. Havia um nevoeiro
Espesso como um cobertor molhado e frio
Separando os corpos como ilhas.
Tudo me prendia
A uma distância cinematográfica do comércio.
Entre os muros do momento presente,
Encontrei-me encalhado no país dos outros.
Os repórteres esperavam na beira da água
Pelas fotografias dos sobreviventes.

8 de janeiro de 2018

"folhas - letras & outros ofícios"

A "folhas - letras & outros ofícios" é a revista de poesia do Grupo Poético de Aveiro. Vai em 20 anos e no número 15 (Novembro de 2017, mas só ontem me chegou às mãos). Neste número são publicados dois poemas meus, que aqui deixo.
Daqui cumprimento os três coordenadores desta edição: Carla Ribeiro, João Rasteiro, Rita Capucho.



22 de novembro de 2017

por falar em museus



Um museu da aeronáutica devia voar,
para não fixar em terra os seres alados que celebra,
os homens e as mulheres que se metem nas máquinas aéreas.
Um museu da ferrovia devia fazer-se material circulante,
atravessar o país de lés a lés, talvez para lá das fronteiras,
abrir as suas portas sempre numa estação diferente,
levando vagas viajantes de uma terra para outra,
fazendo do museu dos comboios composição em movimento.
Um museu marítimo devia ser húmido,
construído nas águas, cercado por águas,
onde barcos vogassem lado a lado com peixes,
moluscos, pássaros marinhos, sereias se as houvesse,
abrindo portas por onde se entrasse nadando
e onde fossem grandes as aflições de quem ainda
ou já não
soubesse nadar,
esse movimento próprio de visitar o que ao mar pertence.
Um amor, ou mesmo uma amizade, devia calcorrear o mar,
onde encontraria o museu marítimo,
furar o ar,
onde se cruzaria com o museu da aeronáutica,
circular pelas terras do país, e vizinhas,
atravancando passagens de nível com o museu ferroviário,
fazendo jus ao seu carácter migrante.
Um amor, ou mesmo uma amizade,
não é ser que possa ficar quedo, expectante,
preferindo descarrilar.
E, claro, um amor, ou mesmo uma amizade,
nunca deveria ser exactamente um museu.

22 de setembro de 2017

aldeia zoroastra







Postado perante uma civilização morta
nessa qualidade inóspita de visitante
a ruínas mais ou menos remontadas
pela imaginação arqueológica dominante,
não é o pó que me incomoda
nem as tantas pedras dispostas que ninguém
verdadeiramente sabe o que são ou serviam
nem a atenção dos leigos desviada
por ilustrações modernas arriscadas,
especulativas –

incomoda-me a própria visitação :
ninguém está tão morto como naquele momento
em que começam a chegar as visitas
desfilando ordenadamente aos nossos pés
olhando-nos com a curiosidade da última vez
facilmente confundível com a volúpia do primeiro encontro.
Visitamos civilizações mortas e, como num velório,
honramos tudo
o que não fizemos em vida.
Pode ser tarde para aprender com Zaratustra.

7 de julho de 2017

Medida Incerta







                                                                      (Para o José Pedro Croft)


O maior telescópio do mundo foi instalado em Veneza.
O mais amplo O que vê mais dentro no universo do sentido.
Coisa nunca vista: nem a atmosfera é rarefeita
graças à altitude Nem a poluição luminosa
escasseia no seio da multidão Nem o frio
gela à distância os monstros que distraem as lentes
Nem a elevação do sítio aproxima a arma do alvo
e a humidade da lagoa ameaça a saúde dos dispositivos mecânicos.
Pela mão do homem que curvou um relâmpago
o artefacto confessa a dúvida.
As ópticas desalinhadas As convexidades desviadas
para fins artísticos As disposições metafísicas
do programa de investigação A distribuição espacial
dos corpos em malha As almas encravadas na lama
e luz, muita luz na noite dos tempos,
uma medida incerta a impugnar teoria após teoria:
é o pandemónio no reino da lógica.
Incerta Medida é justa a lenda
do homem que curvou um raio de luz
com um sopro. O maior microscópio do mundo
devemo-lo ao homem que não sabia que era impossível.


(Imagem: vista parcial da obra Medida Incerta, de José Pedro Croft, na Bienal de Veneza 2017.)

23 de junho de 2017

Hic sunt leones





Nestas cidades onde todos nos tornámos migrantes invisíveis
cada homem, cada mulher, cada criança
é uma região do mundo de que pouco se sabe.
Cada vizinho está para além da Taprobana,
em alguma inabitável periferia da ecúmena:
todas as portas são províncias marcadas nos mapas
com os antigos avisos “aqui existem leões”.
Nas ruas que restam, cerzidas por negociantes de ruído,
é irrestrita a liberdade de tagarelar,
mas bairro a bairro vivemos uma frente do tempo
onde não resta espaço algum para a habitação.

12 de junho de 2017

Os Pais



(para o João Pato)



Os pais avançam às arrecuas, vindos da caça, da guerra,
Vindos do mar em direção a terra. Desasados,
Entram em casa sujos, puxando as charruas,
Alfaias de lavoura, para o cuidar tão cruas.
Alguns conhecem os nomes de todas as árvores,
Outros os nomes de todos os peixes,
Poucos os de todas as estrelas, ou das dores a lista infinda.
Alguns pais sabem mesmo o nome de todos os filhos.
Mas por mais inteira que seja a sua ciência percebida,
Aos olhos dos filhos a moral de um pai permanece incerta.
Esguia. Obscura. Vimo-lo salgar as pastagens dos inimigos
E livro algum no mundo explica uma batalha por linhas direitas.
Até à hora de entendemos como,
Na cristalina necessidade do universo,


Os pais sacodem a terra das raízes dos filhos.


6 de março de 2017

[A distância faz a diferença]





A distância faz a diferença.
De longe somos todos omniscientes
Da paisagem da dor alheia.
De perto, na fricção da contingência,
Infecto insecto estrebuchante na teia.

8 de fevereiro de 2017

Da amorosa morte


Magoa esta impossibilidade práctica de morrer.
Uma companhia de anjos e arcanjos amarra-me
a uma armada de máquinas ignaras
e tantos em meu nome falam e por mim advogam
e eu preso no silêncio próprio contemplo o meu corpo

de longe. Visto pelos meus olhos, estou agora cercado
num castelo terapêutico. Continua tenaz a pintura
a branco imaculado das muralhas e eu silêncio.
Silêncio e vontade de silêncio. Seguir o caminho.

Vontade de seguir caminho além desta estação.
Preso peço-te despede-te de mim e fica e em paz parto
por tudo o que fomos um para o outro sem erosão tardia.
Por tudo o que seremos ternamente no instante possível

sem delapidar em obstinação o que tanto amamos.

12 de dezembro de 2016

[ Não me lembro do primeiro beijo]





Não me lembro do primeiro beijo.
Vejo a rapariga que faz a noite, é esquerdina,
há pouca luz, não está a ler enquanto escrevo.
Lê. Não te interrompas.
E não improvises: não imagines o verso seguinte
na tua cabeça, que na minha ainda o não escrevi.
Afinal, mulher, escrevo só para ti,
como escrevo unicamente para um leitor qualquer.
Face à página ocupada, o mundo dirá da ocasião
a etiqueta: do contrato, da ascensão aos céus, do entrudo.
O cão, o pau, o caminho, o medo, o ladrar,
tanta gente e ninguém com a cortina negra de veludo
cobre a tragédia informe que corre neste obscuro bar.
Sob o relâmpago suspenso
vejo a rapariga que faz a noite, é esquerdina.
E não consigo ser eu própria esquerdina.
Não me lembro do primeiro beijo:
não era decerto eu quem estava lá.
Irremediavelmente diversos, eu, nós, todos:
em prosa, em silêncios, em versos.